segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

A encarnação é o modelo para o discipulado cristão

“A encarnação é o modelo para o discipulado cristão. Um discipulado que, antes de ensinar, exortar ou guiar, é um processo de identificação, de solidariedade”

O filme Instinto narra a história de um antropólogo que acaba preso em um manicômio após ser capturado no meio da selva, vivendo como um selvagem entre gorilas. Vivido pelo ator Anthony Hopkins, o estudioso decidira estudar o comportamento daqueles primatas de forma jamais tentada antes – observando-os de perto, em seu habitat.

O filme descreve de maneira empolgante o processo de aproximação entre o professor e o grupo de macacos. Primeiro, o homem precisou vencer o medo de criaturas tão imprevisíveis. Aos poucos, sentiu-se mais à vontade, abrindo mão de equipamentos e acessórios que espantavam os animais, e passou a enxergá-los e admirá-los na sua espantosa singularidade.

Aquele antropólogo do filme aprendeu que, para conhecer os gorilas com profundidade, deveria esvaziar-se de sua postura de dominador. Ele teve que deixar seu acampamento, abrir mão de sua própria segurança e embrenhou-se na selva. Só quando agiu com total desprendimento e entrega, foi aceito pelos macacos e passou a fazer parte do bando. Guardadas as proporções, esta história nos lembra a de outra pessoa: “Cristo Jesus, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens”.

Chamamos a este processo de encarnação. Jesus, movido por sua compaixão para conosco, tornou-se carne e viveu entre nós. Ele despiu-se de sua glória e veio habitar em nossa “selva”. Foi assim que passamos a ouvir a Deus em nossa língua; vimos o seu rosto com a nossa cara; tocamos sua majestade em nossa pele; sentimos o aroma da vida em seu cheiro de gente. E então, pudemos finalmente entender as boas notícias do Evangelho: “Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade”.

A encarnação é o modelo para o discipulado cristão. Um discipulado que, antes de ensinar, exortar ou guiar, é um processo de identificação, de solidariedade. O discipulado dignifica aquele a quem se ama e a quem se deseja resgatar. Nossa missão, como a de Jesus, começa pela compaixão e nos impele a uma viagem, uma expedição em direção ao perdido, ao “selvagem”. É ir em direção àqueles chamados de “estranhos às alianças e sem Deus no mundo”. Será que, como Igreja, estamos dispostos a cruzar fronteiras em nome do Evangelho, a deixar nossa zona de conforto e sair em busca da ovelha perdida? Abriremos mão de estar perto de nossos iguais para cumprir a missão junto aos distantes?

Que possamos ouvir do Senhor o que Paulo também ouviu: “Coragem! Assim como você testemunhou a meu respeito em Jerusalém, deverá testemunhar também em Roma”. Vamos em frente, Igreja de Cristo! Mata adentro! Esta é a nossa missão.

André Botelho
Pastor presbiteriano, professor de discipulado na FLAM - Faculdade Latino-Americana de Teologia Integral e missionário da Missão Jovens da Verdade


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

As escolhas do coração


Nesses últimos dias sem escrever estava me reabastecendo com leituras e pedindo a sabedoria de Deus para que, ao escrever novamente, pudesse chegar, por meio das palavras, ao coração de cada leitor.

Os autores que li são da Escola de Frankfurt, na Alemanha, criada após a Segunda Guerra Mundial . Foram pensadores marxistas e anti-nazistas, que por lutarem por uma sociedade livre e democrática, são exilados, muitos nos EUA e lá também fundam outra escola que irá oferecer, nas últimas décadas, grande fundamentação teórica para aqueles que lutam e acreditam num mundo menos excludente, mais humanizado.
Dentre os teóricos, Gramsci, Marcuse, Horkheimer, Adorno, Benjamin...

Todos esses intelectuais críticos se recusaram a tarefa a eles prescrita pelo capitalismo de servir passivamente às disposições ideológicas e institucionais existentes. Teóricos comprometidos, irrevogavelmente com os oprimidos, os marginalizados, os excluídos, os empobrecidos...

Deixaram registrado na história, alguns até profeticamente, os rumos que a sociedade capitalista tomaria caso deixasse que o individualismo e a autonomia em relação às necessidades dos outros se configurassem em proporção global, como temos vivenciado.

Foram homens que enxergaram longe... para além do fato real da história e projetaram as conseqüências desastrosas da modernidade...

Mas a verdade é que, desde o início das civilizações, houve opressores e oprimidos. Gênesis relata a história de um povo chamado hebreu, escravo dos egípcios, que contribuíram para o enriquecimento faraônico e de toda aquela nação às custas do trabalho escravo.

Roma, babilônicos, subjugaram judeus... e hoje, o Grande Império que mantém um casamento do inferno com os EUA subjugam os povos dos países pobres...

Talvez Jonas tenha sido um Gramsci a seu tempo... inconformado com a subjugação pela qual seu povo estava enfrentando com os ninivitas, embora covarde frente à situação opressora, diferentemente do teórico frankfurtiano.

Deus ordena a Jonas que envie sua Palavra aos ninivitas.
O problema do profeta Jonas era que ele não queria pregar para os opressores políticos e econômicos de seu povo. Assim, quando Deus diz: “Prega; ou Nínive será subvertida!”; Jonas vai para o mar, embarcando num navio que ia para Tarsis, no sul da Espanha de hoje.

Pedro também tinha inimigos que ele certamente queria ver aniquilados. Entre esses, além dos romanos, os cobradores de imposto, gente como Mateus, o publicano de Cafarnaum, cidade onde Pedro morava, e onde pagava os impostos. Mateus seria o último homem para quem Pedro iria pregar nas redondezas. Além disso, Mateus era um dos homens mais ricos de toda a região, e tirava sua riqueza do árduo trabalho de gente simples e honesta como Pedro.

O que tornava a situação ainda mais opressiva e amargurante era o fato de que os impostos eram pagos naqueles dias de um modo perverso. No caso de um pescador como Pedro, tudo o que ele pegava no mar era entregue ao coletor de imposto; e, em troca, ele devolvia o ganho do pescador na forma de peixe salgado, de qualidade inferior, e ainda com o valor do imposto deduzido. Mateus estava para Pedro assim como os Ninivitas estavam para Jonas.

No entanto, quando Jesus passou mais tarde por Mateus, e disse: “Segue-me”—Mateus o seguiu sem hesitação. O amor constrange!
Só Deus sabe o que esse ato pode ter provocado na mente de Mateus.
Pedro acolhe a Mateus, e o chama de irmão, e esquece o peixe seco, e aceita ser com ele: pescador de homens.
Já o profeta Jonas acaba sendo forçado a pregar aos inimigos, faz isto com rancor; e, diante do arrependimento deles, se ira, posto que os interesses políticos, ideológicos, e a força dos preconceitos, havia ainda sobrevivido mesmo à viagem insólita, no fundo do mar, no estomago do grande peixe.

Assim, Jonas se ira com Deus. E o arrependimento dos inimigos o torna mal e hostil, tomado de rancor homicida. E, desse modo, mergulha no mar da amargura e do egoísmo, tendo seus valores tão alterados emocionalmente que é capaz de chorar por uma erva que secara sobre sua cabeça, enquanto não conseguia ter piedade daqueles milhares de ninivitas (Caio Fábio)

Assim, a lição que podemos aprender tanto dos intelectuais críticos quanto de Jonas e Pedro é que tudo neste mundo é fruto das escolhas do coração.

Os grandes pensadores críticos influenciaram e ainda influenciam os que se dispõem a lutar por uma sociedade melhor por meio de sua ação positiva frente a esse mundo.
Jonas se torna exemplo de covardia e amargura que faz submergir o ser no oceano das hostilidades emocionais. Amor, acolhimento, perdão e abertura para a Graça, todavia, é o que torna inimigos em irmãos, a exemplo de Pedro.

Jonas, homem ao mar...
Pedro, homem do mar...

A quem você escolhe para ser exemplo de vida frente a esse mundo excludente, que subjuga povos e nações a mão de ferro pelos poderosos...?
A escolha é sua, mas quem optar pelo segundo, não se afogará... e poderá até “andar sobre as águas”...
Grande beijo

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A Educação e a ordem mercadológica



Não é preciso ser um pedagogo ou estudioso da educação para saber da importância que esta exerce na vida de uma família, de uma comunidade, de um povo.
O que não se sabe, por vezes, é que há menos de uma década a mercantilização dos serviços, antes, direitos educacionais, tem-se constituído de forma bastante acelerada. Basta ver a grande expansão da educação privada lato e scrictu sensu; a crescente privatização interna das instituições públicas; a estagnação do financiamento público; o surgimento de novos modelos empresariais provedores de serviços educacionais com fins lucrativos orientados pelo mercado; a submissão dos sistemas de ensino, inclusive os públicos, às políticas agendadas pelo Banco Mundial, FMI dentre outros, além da indústria dos dispositivos pedagógicos extra-escolares (softwares etc).

O debate em torno do público e do privado tem-se intensificado. Embora nunca tenha saído do cenário educacional, agora se sofistica , atribuindo ao estatal as mazelas de ineficiente, corrupto, cobrador de impostos, opressor e anti-democrático, enquanto que o privado é portador do bem, do belo, da virtude, da liberdade individual, da eficiência, do dinamismo, da democracia, da autonomia. Esqueceu-se que, em nosso país, especificamente, o Estado tem sido desqualificável porque se tornou privado. Um Estado que tem feito do campo educacional a mais nova fronteira de expansão do capital da dita Sociedade Informacional.

Em meio a esse cenário desencantador que reflete dualidades, ambigüidades e contradições, o que dizer das instituições de ensino confessionais e dos estabelecimentos de ensino com propostas pedagógicas orientadas por princípios bíblicos? Têm elas se adequado à lógica mercadológica ou atuado no campo dos direitos, da cidadania?

O que se percebe é que muitas instituições de ensino com roupagem de “confessional” despem-se quando o assunto é “lucro”. Faltam em suas propostas pedagógicas a visibilidade de projetos de extensão que atentam para a solidariedade, para a amorosidade, para o conhecimento sobre Deus e seus propósitos.

É preciso que tais instituições priorizem a educação não enquanto produto de venda ou troca, não enquanto chave mágica para a superação de classe. Ao contrário, seu valor e importância devem ser ressaltados pela condição de consciência (política, moral, ética, filosófica e espiritual) que pode proporcionar a todos os que a ela tiverem acesso – consciência esta indispensável para que haja mudanças profundas na estrutura social moderna e excludente que temos ainda vivenciado.
Cabe aos coordenadores pedagógicos e líderes cristãos inseridos nestes estabelecimentos confessionais de ensino – seja pelo viés dos centros acadêmicos ou de escolas de educação básica – reverem seus conceitos, seus valores, suas metas e propósitos frente ao que esperam dessa educação para não se tornarem escravos e alienados no seu próprio ambiente de trabalho.

Libertar-se e desalienar-se implica em conscientizar-se do valor da educação cristã e lutar contra essa sociedade que transforma até o imaterial em moeda de troca.
Vanessa

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Um cenário sombrio da humanidade



No bojo das transformações geradas pelo capitalismo, ou mais precisamente pela globalização, os seres humanos estão sendo deixados do “lado de fora”, ou melhor, excluídos do mundo social.

A vida humana encontra-se num cenário sombrio.

Em Vidas desperdiçadas, Bauman classifica os seres humanos que não conseguiram permanecer no carro da modernidade e que não conseguem se inserir no processo de globalização, de “refugo humano”. A globalização é excludente, traiçoeira, eliminadora. Ela causa morte, fome, desemprego e caos para milhões de seres humanos, afirma Bauman.Produz dejetos, sujeiras e lixo humano que são jogados longe dos grandes centros urbanos e são colocados em grandes depósitos em terras inabitadas, sem qualquer tipo de organização, de política de reciclagem.

Nosso planeta está cheio, afirma Bauman, está cheio porque a modernização se globalizou chegando a terras longínquas, penetrando nos costumes, na organização do modo de vida de povos que não se interessavam pela corrida ao progresso.

Como o processo de produção de refugo humano é inquebrantável, ou seja, não pára um só instante, as áreas do globo estão cada vez mais lotadas, saturadas. Onde colocar o lixo, então? Essa questão é a que é mais debatida neste novo ensaio de Zygmunt Bauman sobre o processo de globalização e suas conseqüências.

A vida contemporânea é carregada de uma ideologia consumista que prega a individualização do individuo e, conseqüentemente, a negação do sentido humano de solidariedade. Neste caminho segue a produção de refugo humano e de lixo em maiores quantidades, haja vista que a sociedade de consumidores se sobrepôs à sociedade de produtores. Quem não consome torna-se refugo humano e o que é consumido transforma-se em lixo, dejeto ou sujeira.

A globalização mudou a trajetória de vida desta geração, acabou com sonhos e projetos, criou dicotomias, rompeu com tradições e acelerou suas vidas. A globalizante modernidade líquida deixou pra trás a sociedade de produtores por uma sociedade de consumidores onde o que impera é a produção de refugos e de lixo. Ela fez com que os projetos humanos causassem a desordem e o caos no “admirável mundo líquido”.

Até mesmo a internet, potente ferramenta da modernidade, é mais um deposito de refugo de informação. O ciberespaço concentra milhões de informações descartáveis e inúteis. Por outro lado, os sites contabilizam números recorde de informações sobre refugo (lixo). Digitando no buscador google a palavra refugo (lixo) encontraremos 11.500.000 sites referente ao tema. Este fato reforça a idéia de que o lixo está se tornando um dos problemas mais angustiante de nossos dias. E quantos têm usado essa ferramenta somente para se lambuzar de "lixo"?

O refugo humano (as pessoas) está excluído de tudo, a lei não o contempla, os governos não se responsabilizam por eles. Vivemos no caos e na ordem. Os humilhados e excluídos do sistema correspondem à maioria dos seres humanos existente na terra.

A mídia incita os cidadãos e o próprio governo à xenofobia. Nasce, dessa maneira, uma genealogia do medo baseada no receio ao terror e ao estranho (imigrantes, refugiados e asilados).
Os estranhos (imigrantes, refugiados e asilados) têm como função receber toda a descarga de raiva e as ansiedades dos indivíduos, sobretudo por representarem um perigo para a segurança dos cidadãos. Daí, eles se tornam alvos fáceis de tema de campanhas xenófobas, tanto pelos governos como pela população.

Os imigrantes e os asilados são considerados o refugo da globalização, lixo humano que vaga em busca de um lugar na sociedade do progresso. Mas, o outro lixo, aquele tradicional que é produzido por “nós” também não existe mais lugar onde depositá-lo, guardá-lo. Os consumidores estão produzindo toneladas de lixo, alias, sem contar com o novo tipo de lixo produzido pela modernidade líquida: o lixo industrial, eletrônico. Estes têm vida longa, demoram milhares de anos para se decompor, poluem e estão destruindo nosso planeta.

Globalizaram o medo, globalizaram o crime, os governos preferem prender imigrante a acabar com o crime organizado a acabar com as máfias organizadas e poderosas.
O mundo globalizado prega por uma política de exclusão, de retirada de refugo. Cada país cuida de seu “lixo”, de sua população redundante retirando-a do convívio com os outros indivíduos úteis. A população redundante é a parte inútil, imprestável, que deve ser retirada de circulação, jogada em campos de refugiados. Para que isso aconteça, os países ignoram as leis internacionais, perpetram limpeza étnica e genocídios.

O Estado de tolerância zero é acionado, os guetos são isolados, os bairros periféricos são vigiados dia e noite. Há uma produção de um Estado de emergência baseado no medo do “outro” (o estrangeiro, o pobre, o negro, o ex-presidiário). Tudo isso ocorre porque o mundo líquido destituiu o Estado de seus programas sociais, de seu dever para com sua população. O Estado social transformou-se em um Estado de guarnição, no qual o que impera é a proteção dos interesses das corporações globais e das transnacionais.

A cultura do lixo predominante da era líquida representa os novos modos de viver no mundo. O consumir soa ressonante nos ouvidos dos indivíduos de maneira a tornarem escravos dos cartões de créditos, do luxo e da beleza/estética. Sem falar que o consumismo cria a difícil batalha para permanecer dentro do mercado de trabalho, paradoxalmente cria-se a cultura do não emprego permanente, do fim dos compromissos com o “emprego para sempre”.

Os relacionamentos tão pouco exigem compromisso, fidelidade. Namorar não requer mais todo um ritual de conquista, de galanteio e de sedução. Agora, namora-se à distância, temos diversos tipos de relacionamento, você escolhe: relacionamento de bolso, relacionamento à longa distância, relacionamento cool, encontro veloz e outros.

Mudamos nossos comportamentos, porque a sociedade está em constante transformação. Nossos ideais transformaram-se em sonhos, por vivermos num mundo de permanente incerteza, onde tudo que agora é novo daqui há alguns minutos torna-se velho, lixo.

Estamos na era da insegurança, na qual o medo predomina mais precisamente nos grandes centros urbanos. Na modernidade líquida os indivíduos não se olham tête-à-tête, preferem a tecnologia do telefone celular para se comunicar, pois é mais seguro não sair de casa. Preferem os reality show da televisão, como o Big Brother, é mais emocionante do que ir ao parque, ao cinema.

Em suma, o que tal globalização vem proporcionando ao mundo é: o aumento da produção de lixo (refugo humano, lixo tradicional e industrial), o aumento da população mundial e o aumento das desigualdades continentais; a separação entre os rico s e os pobres, os europeus e os não-europeus, os países subdesenvolvidos (sul) e os desenvolvidos (norte).

Que possamos, a partir dessas reflexões, trazer à tona os ensinamentos de Cristo, conforme nos exorta Paulo:

“não andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza.
Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus". (Ef. 4: 17-21)

Vanessa

Texto adaptado da resenha de Antônio Marcos de Sousa Silva sobre o livro Vidas Desperdiçadas, de Zygmunt Bauman

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Saudades...


Meus amigos:

Já são quase duas da madruga e um sentimento diferente tomou conta de mim...

Senti vontade de escrever, de passear minhas mãos por esses teclados e deixar que meu coração determine o que tiver vontade de fazer brotar daqui...

Senti saudades da infância...

Senti saudades de papai e mamãe juntos e de nós quatro, Lu, Léo, Marcinha e eu...

Saudades das tardes e brincadeiras de rua, dos dias de escola, das bacias de pipoca em dias de chuva...

Saudades de ser pequena em colos grandes.

Saudades de fugir de casa de bicileta...

Saudades de subir em árvores e de ser eu.

Saudades de me darem beijinhos de boa noite e de jantar de pijama e cabelo molhado.

Saudades de acordar de madrugada para puxar o sol do sono demasiado longo para dias demasiado curtos...
Saudades de pedir licença para ver televisão, saudades de ficar de castigo quando fazia asneiras...
Saudades de chorar lágrimas pequeninas, que as grandes pesam muito e a força ficou lá atrás...

Saudades das sextas no Alô Brasil e do papai, sentado no sofá cantando: Sapatinho, meinha... Era a hora de nós, irmãos, apostarmos corrida pra ver quem calçava os pés de papai com as meias e os sapatos... E eu, trocando as cores das meias só pra depois achar graça do mal feito...

Saudades de brincar de casinha com a caçula, de passear no cemitério, livre, alegre e inocentemente lavando túmulos e curtindo o cheiro de velas queimadas e flores “defuntadas”...

Saudades dos pique-escondes, das carimbadas, do entregador de guaraná mineiro e Yakult que, décadas atrás, entregava de porta em porta tais mercadorias...

Saudades das viagens à praia com a família... Caraguatatuba, Ilha Bela, Gramado, Floripa, Guarujá, Camboriú, Blumenau...

Saudades do corcel marrom, novinho em folha... que acomodava todos nós e mais uma ou duas primas...

Saudades dos finais de semana na chácara, curtindo a piscina no meio do brejo, compartilhando com baratas d’água e pererecas o banho maravilhoso que só aquela água da bica proporcionava...
Saudades de papai lavando o chiqueiro, matando cobras, tirando leite de vaca, plantando cenourinhas e beterrabas... pintando com cal os pés de laranja e mangueirais...

Saudades dos pés de pitanga, dos pés de amora, das inúmeras espécies de manga, abacates, carambolas, laranjas e cajamangas...

Saudades do paiol onde brincávamos nas palhas de arroz e nos empetecando de piolhos de galinha com os primos...

Saudades dos finais de semana com arroz, frango e macarrão, papai, mamãe e irmãos...

Saudades dos passeios de moto com papai, onde meus bracinhos ainda não conseguiam dar a volta toda em sua barriga...
Saudades dos finais de semana com primos e primas...
Saudades das festinhas de aniversário e dos bolos confeitados...

Saudades da mamãe carinhosa, cumprindo seu dever missionário e nos levando à escola bíblica dominical...

Saudades das brigas de irmãos por causa dos danones e dos chocolates diamante negro – naquela época, só vendiam em pacotinhos de cinco unidades, e éramos em quatro...

Saudades das aulas de violão e guitarra...

Senti saudades da adolescência...
Dos beijos escondidos,
Dos namoros efêmeros,
Do Roupa Nova e Legião Urbana com o Léo cantando Faroeste Caboclo...

Saudades da Alfredo Júlio e dos seus bordéis...

Senti saudades da juventude...
Dos acampamentos, das serenatas, do namoro vigiado...

Saudades da tristeza...
Saudades da desesperança e do desespero quando papai adoeceu...
Saudades de sua alegria em meio à sua desgraça...
Saudades do meu choro quando tinha que limpá-lo...

Saudades da mamãe costurando...

Será que a vida é só saudades?

Saudades de pessoas...
Saudades de quem falta, de quem parte, de quem sabemos que não volta e de quem certamente reencontraremos...

Tenho saudade do passado, do presente e do futuro. De músicas, cheiros e vozes que não ouvirei nem sentirei mais.

Tenho saudades de tudo e de nada, porque não podemos ser íntegros nunca e ter em nós ao mesmo tempo todas as coisas que nos compõem, sejam elas memórias ou desejos...

Haverá maneira de saírem de si mesmas e regressarmos, em todas elas, sem faltar uma única, a nós?
Um grande beijo, com muita saudade de alguns...
Vanessa

No princípio criou Deus os céus e a terra...?


... texto ofertado aos amigos teistas, deistas, ateistas, crentes, des-crentes, religiosos, ou não... em fim , seres humanos aos quais tenho que agradecer pela caminhada da vida...

Marcelo Fernandes

O princípio andrópico


A vida e a consciência pertencem ao universo, mais concretamente, à nossa galáxia, à Via-Láctea, ao sistema solar e ao planeta Terra. Para que tivessem surgido, foi preciso uma calibragem refinadíssima de todos os elementos, especialmente, das assim chamadas constantes da natureza (velocidade da luz, as quatro energias fundamentais, a carga dos elétrons, as radiações atômicas, a curvatura do espaço-tempo entre outras). Se assim não fosse não estaríamos aqui escrevendo sobre isso. Refiro apenas um dado do último livro do astrofísico Stephen Hawing "Uma nova história do tempo"(2005):"Se a carga elétrica do elétron tivesse sido ligeiramente diferente, teria rompido o equilíbrio da força eletromagnética e gravitacional nas estrelas e, ou elas teriam sido incapazes de queimar o hidrogênio e o hélio, ou então não teriam explodido. De uma maneira ou de outra a vida não poderia existir"(p.120). A vida pertence,pois, ao quadro geral.


Para conferir alguma compreensão a esta refinada combinação de fatores se criou a expressão "princípio andrópico" (que tem a ver com o homem). Por ele se procura responder a esta pergunta que naturalmente colocamos: por que as coisas são como são? A resposta só pode ser: se fosse diferente nós não estaríamos aqui. Respondendo assim não cairíamos no famoso antropocentrismo que afirma: as coisas só têm sentido quando ordenadas ao ser humano, feito centro de tudo, rei e rainha do universo?


Há esse risco. Por isso os cosmólogos distinguem o princípio andrópico forte e fraco. O forte diz: as condições iniciais e as constantes cosmológicas se organizaram de tal forma que, num dado momento da evolução, a vida e a inteligência deveriam necessariamente surgir. Esta compreensão favoreceria a centralidade do ser humano.


O princípio andrópico fraco é mais cauteloso e afirma: as precondições iniciais e cosmológicas se articularam de tal forma que a vida e a inteligência poderiam surgir. Essa formulação deixa aberto o caminho da evolução que demais a mais é regida pelo princípio da indeterminação de Heisenberg e pela autopoiesis de Maturana-Varela.


Mas olhando para trás, nos bilhões de anos, constatamos que de fato assim ocorreu: há 3,8 bilhões de anos surgiu a vida e há uns quatro milhões de anos, a inteligência. Nisso não vai uma defesa do "desenho inteligente" ou da mão da Providência divina. Apenas que o universo não é absurdo. Ele vem carregado de propósito. Há uma seta do tempo apontando para frente.


Cabe ainda considerar que o cosmos está em gênese, se autoconstruindo. Cada ser mostra uma propensão inata a irromper, crescer e irradiar. O ser humano também. Apareceu no cenário quando 99,96% de tudo já estava pronto. Ele é expressão do impulso cósmico para formas mais complexas e altas de existência.


Alguns aventam a idéia: mas não seria tudo puro acaso? O acaso existe como mostrou Jacques Monod. Mas ele não explica tudo. Bioquímicos comprovaram que para os aminoácidos e as duas mil enzimas subjacentes à vida pudessem se aproximar, constituir uma cadeia ordenada e formar uma célula viva seriam necessários trilhões e trilhões de anos.


Portanto mais tempo do que o universo e a Terra possuem. Talvez o recurso ao acaso mostre apenas nossa incapacidade de entender ordens superiores e extremamente complexas como a consciência, a inteligência, o afeto e o amor. Não seria melhor calarmos reverentes e respeitosos?
Leonardo Boff

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Jesus morreu para salvar o Cristianismo?


O surgimento da Igreja é descrito em Atos 2. Cinqüenta dias após a ressurreição de Jesus, o Espírito Santo veio sobre os cristãos na Festa de Pentecostes, dotando-os de dons e capacitando-os para o serviço do Reino.


Isso significava que, a partir daquele momento, os cristãos seriam os “mensageiros” da boa-nova e a própria habitação do Espírito Santo.
A narrativa que nos é apresentada sobre essas pessoas cristãs revela como viviam:

"perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão, nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de cada em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos (Atos 2:42-27).

Que diferença dos “vaticanos” atuais”! Quando refletimos sobre a singeleza da Igreja primitiva, percebemos como a instituição religiosa que a intitularam de “Igreja” em nada se parece com a Igreja Invisível de Cristo. Isto porque a Igreja-instituição surge no quarto século, com Constantino, cuja religião passa a ser o Cristianismo.


Quando os líderes do Império Romano percebem que os cristãos passam a ser uma ameaça para a manutenção do poder, oficializam o Cristianismo como religião do Império e passam a perseguir todos aqueles que não se consideram “cristãos”. Ou seja, no jogo do poder, na ordem das “conveniências”, muda-se o destino, a rota, a fim de que se mantenham as relações entre os que mandam e os que obedecem, num ciclo de subserviência que ainda, nos dias atuais, continuamos a presenciar!


Assim, o Cristianismo já nasceu sob o signo da perversão, na contramão da Igreja Primitiva. Não foi Cristo quem fundou o Cristianismo e nem qualquer outra religião. Jesus não deu a sua vida pra salvar o cristianismo e nenhuma outra religião da Terra., pois Ele é Senhor e Salvador de todos os homens, e não dos filhos do Cristianismo.


Nesse sentido, o convite feito a todos os que participaram do Fórum foi para que voltássemos nossos olhos para a origem dos ensinos de Cristo, entendendo o que Ele desejou quando implantou em cada um de nós a Sua Igreja.


Crescer em entendimento e experiência da Graça de Deus na presente existência, confrontando o que é religião, invenção humana, artimanha de poder com o Evangelho-Cristo requer um coração limpo, purificado, tendo o discernimento de saber o que convém e o que edifica. Isto porque sabemos que quem, de fato e de verdade, entendeu o evangelho e seu significado, sabe que o Cristianismo se tornou uma perversão da proposta de Cristo transformando o Evangelho puro e simples numa religião com dogmas, doutrinas, usos, costumes, tradições com poder de imutabilidade e muita barganha com os homens, em franca e pagã manipulação do nome de Deus.


Atender ao chamado de Cristo para que sejamos seres-sal-e-luz se espalhando pela Terra, e se diluindo em sabores e luzes que só serão sentidas, mas jamais se tornando uma Salina ou uma Usina de luz cristã, a serem visitadas pelos curiosos, é o que desejamos como Igreja.


Este é o convite de Deus para que cresçamos como gente ainda nessa vida!
Você vem?
Beijo a todos, com muito amor,
Nele, que é o Caminho em movimento nos caminhos da existência,
Vanessa