domingo, 14 de dezembro de 2008

Como está o seu jardim?

"No meio do deserto existe um oásis. Nele não há árvores frondosas, odaliscas, lagos frescos e frutas grávidas do melhor sumo. No meio do Deserto de Neguev, em Israel, existe um deserto chamado Amós Oz e nele tudo o que podemos beber são algumas talagadas de esperança, liberdade, imaginação e paz, sem nada do pieguismo que muitas vezes acompanha tais conceitos."

Foi com esses elementos que este israelense, nascido em Jerusalém há 65 anos, construiu uma das literaturas mais sensíveis de hoje sobre o "humano, demasiado humano", para emprestar a expressão de Nietzsche. E em seu livro contra o fanatismo, Amós Oz escreve:

" Creio que a essência do fanatismo reside no desejo de forçar as outras pessoas a mudarem. A inclinação comum de melhorar seu vizinho, de consertar seu cônjuge, de guiar seu filho ou de endireitar seu irmão, em vez de deixá-los ser.
O fanático é uma criatura bastante generosa. é um grande altruísta. Freqüentemente, o fanático está mais interessado em você do que nele próprio. Ele quer salvar sua alma, quer redimi-lo, quer libertá-lo do pecado, do erro, do fumo, de sua fé ou de sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares ou curá-lo de seus hábitos de bebida ou de voto.
O fanático importa-se muito com você, ele está sempre ou se atirando no seu pescoço, porque o ama de verdade, ou apertando sua garganta, caso você prove ser irrecuperável. E, de qualquer modo, falando topograficamente, atirar-se no pescoço de alguém ou apertar sua garganta é quase o mesmo gesto. De qualquer jeito, o fanático está mais interessado em você do que nele próprio, pela razão muito simples de que ele tem um si próprio muito pequeno, ou nenhum si próprio, em absoluto". ( Amós Oz, contra o fanatismo)

E Amós Oz adverte: “Muito cuidado, o fanatismo é extremamente infeccioso, mais contagioso do que qualquer vírus. Pode-se contrair fanatismo facilmente, até mesmo ao tentar vencê-lo ou combatê-lo.

Mas, como podemos reagir ao fanatismo ou nos preservarmos dele?
Com imaginação, é a resposta de Amos Oz: «Sentido de humor, a capacidade de imaginar o outro, a capacidade de rirmos de nós próprios constitui uma cura parcial, a capacidade de nos vermos como os outros nos vêem é um outro remé­dio. A capacidade de conviver com situações cujo final está em aberto, inclusivamente de aprender a desfrutar com essas situações, de aprender a desfrutar com a diversidade, também pode ajudar.

E o que é humor para Amós Oz?

Humor é relativismo, humor é a habilidade de nos vermos como os outros nos vêem, humor é a capa­cidade de perceber que, por muito cheia de razão que uma pessoa se sinta e por mais tremendamente enganada que tenha estado, há um certo lado da vida que tem sempre a sua graça. Quanto mais ra­zão se tem, mais divertida se torna a pessoa. E para ele, “onde temos razão não podem crescer flores”.

E se assim é, todos nós temos um gene fanático dentro de nós...

E o fanatismo, a meu ver, é a tentativa humana de querer mudar o outro...

E para o fanático, conforme prescreve Amós Oz, os fins justificam os meios... Ou seja, vale qualquer coisa para “salvar” o outro daquilo que ele condena...

O fanático é um ser que, embora generoso...

Se faz divino ao assumir o papel de Deus.

Isto porque as Escrituras afirmam que “Deus é quem efetua em nós tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade” (Filipenses 2:13)

Desejar o bem do outro, orar por ele, aconselhar, sofrer junto, estender a mão, não significa e nem pode significar impedi-lo de ser...

O papel de convencer ou converter pertence a Deus, da Sua Essência em nós: o Espírito Santo...

E Graças a Deus por isso.

Nele, que faz crescer flores em nós quando nos despojamos de nossas razões, de nossas certezas, de nossas convicções e apenas O deixamos ser em nós.

E eu não quero ter um si próprio pequeno, mas um Ele próprio em mim, que me guia, me convence, me leva...

Vanessa

CONTRA O FANATISMO



CONTRA O FANATISMO
AMÓS OZ


Resenha por Henrique Chagas
[ VERDES TRIGOS - http://www.verdestrigos.org/ ]


O fanatismo e a intolerância são os temas principais deste livro, resultado de três conferências realizadas por Amós Oz no Fórum de Literatura da Universidade de Tübingen, na Alemanha, onde atuou como professor convidado em 2002. O ponto de partida é, evidentemente, o mundo pós-11 de setembro, com a disseminação do terror e o acirramento dos conflitos entre árabes e israelenses.


O escritor israelense vai, no entanto, muito além do noticiário ao tentar investigar as motivações mais profundas - e universais - daqueles que matam e morrem apegados cegos por suas certezas. Pessoas que explodem clínicas de aborto nos Estados Unidos, que queimam mesquitas e sinagogas aqui na Alemanha diferem de Bin Laden apenas em escala, mas não na natureza de seus crimes, argumenta.


Em 1967, Amós Oz foi à guerra por entender que seu país, Israel, estava ameaçado. Na década seguinte já militava no PAZ AGORA, principal movimento pacifista israelense. Por isso, este texto traduz mais do que idéias: sua substância é a vivência de quem rememora a infância, quando atirava pedras nos blindados britânicos que ocupavam Jerusalém assim como os palestinos o fazem hoje contra as tropas israelenses. Com um texto claro e muitas vezes irônico, como quando fala de fanáticos mais civilizados, como antitabagistas e vegetarianos radicais, Amós Oz receita doses de bom-humor contra o fanatismo, recorrendo a escritores como Shakespeare, em cujas obras toda forma de fanatismo acaba em tragédia ou comédia.


Para o autor, quanto mais você tem razão, mais engraçado fica. O tom leve do livro, mesmo quando trata de temas polêmicos, pode ser exemplificado no conselho dado pela avó do escritor sobre as diferenças entre cristãos e judeus quanto à chegada do Messias. Se o Messias vier e disser oi, é muito bom revê-los os judeus vão ter que reconhecer seu engano. Se, de outro modo, o Messias chegar dizendo muito prazer, é um prazer conhecê-los, todo o mundo cristão terá que pedir desculpas aos judeus.


Contra o fanatismo é apresentado no entusiasmado prefácio de Nadine Gordimer, escritora sul-africana premiada com o Nobel de Literatura em 1991, como a voz da sanidade que ultrapassa a confusão, a mentira, a baboseira histérica e a retórica existente no mundo sobre os conflitos atuais. Amós Oz nasceu em Jerusalém em 1939.


Sua obra já foi traduzida para mais de 30 idiomas. É autor, dentre outros romances, de Meu Michel, A caixa preta, Pantera no porão e O mesmo mar. FRASESe o redentor viesse, ele viria contando piadas (...). No momento em que aprendermos a rir de nós estaremos imunes ao fanatismo.

domingo, 23 de novembro de 2008

O valor mítico das Escrituras...



" A visão científica aperfeiçoa a compreensão mas pode,
imperceptivelmente, subtraí-la ao homem. Uma vez separadas e purificadas do denominador comum mítico, a astrologia tornou-se a astronomia e a alquimia, química. O conhecimento delas se acelerou, mas, juntamente com o mito, o saber tornou inconsciente o aglutinante psicológico. A astrologia era um aglomerado de astronomia ingênua com psicologia; a alquimia, de química ingênua com psicologia.
Expulsando o homem real - aquele que não é só bioquímico-, as ciências individuais progridem vertiginosamente como saber específico, mas a soma dos conhecimentos que delas deriva pode revelar-se frágil porque foi perdido o critério unificador, o cógico humanista completo. Suas explicações se distanciam cada vez mais das narrações, porque a narrativa que 'convence' (do latim, convincere, conquistar, atrair, trazer para si) pressupõe um fundo mítico que lhe dê som profundo: a simples exposição dos fatos escorrega dentro de nós de maneira inerte e se fraciona em todas as direções, como fluxo de água que não encontra leito no qual correr ou sons que não encontram caixa de ressonância" (Luigi Zoja, História da Arrogância)

Apropriando-me dos dizeres de Zoja ao criticar a sociedade da técnica, que substituiu a narrativa pela informação, o mito pela ciência, evoco a simplicidade da linguagem bíblica e o seu valor poético, metafórico e, sobretudo, narrativo... pois nesse cenário da técnica, a Teologia "cientificizou" Deus...

A Revelação Divina deu lugar à Bibliologia...

O Verbo Vivo foi substituído pela Cristologia...

Ao invés do Consolador, essência de Deus em nós, prevalece a Pneumatologia...

A mensagem de esperança agora se chama Escatologia...

Fazer das Escrituras a Palavra de Deus ser viva em nós é ressignificar, cotidianamente, o já conhecido...

Nos dizeres de Zoja:

" Perceber um fundo mítico significa perceber a narrativa como já conhecida, embora sem saber nem onde nem quando: qualidade que evoca os traços significativos ao proscênio da memória e faz a criança pedir que lhe narrem de novo o já conhecido, a fim de reconhecer suas emoções e consolidar sua identidade. Tudo o que é adequadamente narrado se torna interiormente verdadeiro (...), pois "a verdade que é demonstrada pela via racional, embora adquirida de modo indiscutível no plano consciente mas sem obter ressonância interior, não oferece orientações para um sentir ancorado na personalidade, não leva a alma para casa, e é irrelevante na luta contra a angústia e para a restituição do sentido da existência" (Luigi Zoja. História da Arrogância).

E ainda:
" Se a ciência não narra mais, mas apenas informa (nos forma, nos constrói sem nos fazer participar), ela é estranha à sabedoria porque não mais produz saber e sim informações (construções)" (idem)...

A narrativa bíblica, todavia, não pode ser moldada nos formatos científicos ou técnicos...

Ela é viva...

Produz vida...

Encanta o ser...

Eleva a alma...

Alimenta o espírito...

E sua excelência está no fato de ser o próprio Deus Encarnado o Grande Narrador...
E é Ele quem restitui em nós o "sentido da existência"...

Que Deus nos livre do homem tecnológico, que substituiu o mito pela ciência, a narração pela técnica, e nos faça co-participantes de toda trama existencial por meio da Palavra Viva - narração do próprio Deus a nós.

Vanessa

O que me basta?



Historicamente, o Brasil é um país fortemente marcado pelas desigualdades sociais. Um conjunto de razões ligadas à sua formação histórica faz com que a sociedade brasileira continue caracterizada pelas disparidades sociais e pela pobreza que, ao se combinarem, alimentam o crescimento inexorável da violência urbana transformada em principal flagelo das grandes cidades.


Violência esta que cresce a cada dia, fruto também de um mundo globalizado que exclui milhões de pessoas do acesso a bens de consumo, do lazer, da educação, etc.

A flexibilização e adaptação constantes ao mundo do trabalho, a instabilidade, os empregos incertos que surgem e desaparecem de acordo com as regras do jogo que transcendem as características particulares de uma localidade, geram e intensificam a exclusão social.


Exclusão esta que produz seres humanos “supérfluos”, excedentes, redundantes do ponto de vista da produção material e intelectual - uma conseqüência da globalização e do progresso econômico que, nos dizeres de Bauman, em Vidas Desperdiçadas, “se espalha pelos mais remotos recantos de nosso planeta “abarrotado”, esmagando em seu caminho todas as formas de vida remanescentes que se apresentem como alternativas à sociedade de consumo” (2005, p;76).

Neste espaço global, “regras são estabelecidas e abandonadas no curso da ação, e o mais forte, o mais habilidoso, o mais veloz, o que tem maiores recursos e o mais inescrupuloso é que as impõem e derrubam” (idem, p.83).

Essa estrutura de dominação econômica dos países ricos sobre os mais pobres, principalmente sobre países emergentes como o Brasil, desprovido de longa tradição democrática e de instituições capazes de amortecer os choques causados pela mutação do trabalho e do indivíduo, neste limiar de século, vai “arando” um terreno de incertezas, que gera medo, angústia e insegurança.


Neste cenário, as narrativas bíblicas tendem a ficar cada vez mais distantes do imaginário coletivo...


Jesus, em Mateus 6 disse:


"Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu; não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros, e contudo, o vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?Qual de vós poderá, com as suas preocupações, acrescentar uma única hora ao curso da sua vida? Quanto ao vestuário, por que andais ansiosos? Observai como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem fiam. Eu, porém, vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.Se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vestirá muito mais a vós, homens de pequena fé?Portanto, não andeis ansiosos, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? ou: Com que nos vestiremos? Pois os gentios procuram todas estas coisas. De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas elas. Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não andeis ansiosos pelo dia de amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal".



Um enorme desafio para a civilização do excesso, da superfluidade, da superficialidade, do refugo e de sua remoção... para os habitantes das sociedades contemporâneas, onde nada se destina a permanecer... onde "os objetos úteis e indispensáveis de hoje são, com pouquíssimas exceções, o refugo de amanhã" (Zygmund Bauman)...

Civilizações que se divinizaram e humanizaram o Divino...
Que trocam o significado do ser pelo ter...

Sociedades do consumo e da produção de refugos...



Sociedades com "um modo de vida que está moribundo - a cultura do individualismo competitivo, o qual, em sua decadência, levou a lógica do individualismo ao extremo de uma guerra de tudo contra tudo, à busca da felicidade em um beco sem saída de uma preocupação narcisita com o eu" (Christopher Lasch)



Que o grito de Luigi Zoja nos alcance: "Eu sou quase nada: como posso querer tudo"?

Assim como Paulo, posso dizer :"Senhor, a tua graça me basta"...



Vanessa






sábado, 22 de novembro de 2008

Ubuntu pra você!


Ao estudar um pouco sobre a história da África do Sul pós-apartheid, deparei-me com o filme Em minha Terra.

Em 1996, o Governo Sul Africano estabeleceu a Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR) para investigar os abusos aos direitos humanos durante o Apartheid, sob o comando do Prêmio Nobel da Paz, Arcebispo Desmond Tutu.
A comissão era responsável por examinar os atos cometidos entre Março de 1960, a data do massacre de Sharpeville, e 10 de Maio de 1994, o dia do início de Nelson Mandela como Presidente.

Essa comissão foi uma estratégia não só política, mas e sobretudo humana, como forma de oportunizar a reconciliação entre brancos e negros por meio de confissões públicas.

Nesses encontros públicos, vítimas e algozes se enfrentavam cara-a-cara... O lema era desvelar o que, de fato, acontecera nos porões do Apartheid, tendo em vista que esse regime de segregação racial que “manchou” a história sul-africana por quase 45 anos não foi só uma violência física, mas uma violência do silêncio...

Por isso, combater essa violência era dar abertura à verdade. E a verdade vinha à tona como processo de abertura à reconciliação e ao perdão...

As pessoas que assumissem sua responsabilidade durante a audiência pública, teriam judicialmente a anistia dos seus crimes.

Nelson Mandela conseguiu assim conduzir o país em seu mandato presidencial por uma transição que poderia ter acabado em banho de sangue.

Para Mandela, o perdão era o único antídoto contra a vingança...

Vários são os autores que escreveram, ao longo da história, sobre o perdão...

Para Hannah Arendt o perdão é importante para dar continuidade à ação . O perdão é, essencialmente, recomeço...

Para Mandela, perdoar é esquecer...

Segundo Kant, para esquecer, é preciso lembrar, pois não há antagonismos entre lembrar e esquecer...

Ubuntu – que no dialeto xhosa quer dizer “todos somos interligados”, foi o grito de reconciliação entre os africanos. Significa “sou o que sou devido ao que todos nós somos”. Significa também que uma pessoa só é pessoa na relação com outra pessoa: o que você sente, nós sentimos, o que você sofre, nós sofremos...

Assim, essa pedagogia usada na África do Sul da Ubuntu – ou seja, do perdão e reunificação do país e das etnias em torno de uma só nação, fez com que os africanos percebessem que sair dos porões do apartheid e trazer à tona a verdade significava religar as pessoas por meio de confissões públicas, em que um “se enxergava” no outro por meio das atrocidades cometidas ou sofridas.

Feitas as confissões, parentes de mortos e sobreviventes deveriam seguir juntos para construir um futuro.
E fica-nos a lição:
perdoar é oferecer o recomeço...
Perdoar é se religar ao outro...
É trazer à tona a verdade...
É liberar o outro do cárcere existencial e psicológico que o colocamos...

É deixar o outro nascer de novo na nossa história, sem as memórias que fizeram dele uma desagradável lembrança...
É oferecer ao outro uma memória apagada, sem registros, sem mágoas e sem as marcas do ressentimento...

Padrão divino, não humano...
Para Jacques Derrida, perdão é “coisa dos deuses, não dos humanos”...

Mas o padrão divino está ao nosso alcance desde que assumamos nossa humanidade e reconheçamos que por nós mesmos não seremos capazes, pois “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança”... Tg 1:17
Não perdoar é encarcerar a ubuntu que nos liga uns aos outros...

Mas perdoar é se transformar na semelhança de Deus...
Jesus se fez reconciliação por nós para que, por meio dela, conseguíssemos alcançar a ubuntu.
Ubuntu: humanidade para todos...
Quando reconheçamos a nossa humanidade, e a humanidade que temos a partir dos outros estamos a um passo de nos abrirmos ao perdão...

Nele, que é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar de toda e qualquer injustiça, fazendo-se reconciliação por nós e nos conduzindo à Ubuntu - nossa com Deus e com os homens...
Ubuntu pra você!
Vanessa

segunda-feira, 17 de novembro de 2008


GRATIDÃO E QUESTÃO!


----- Original Message -----
From: GRATIDÃO E QUESTÃO!
To: contato@caiofabio.com
Sent: Sunday, September 23, 2007 20:30
Subject: Minh'alma enche-se de gratidão por você

Querido pastor:

Hoje acordei às 4:00h da manhã pra fazer mamadeira para o meu caçula de quase dois anos. É a minha rotina de todo dia.
Lembro-me sempre da sua biografia, quando disse em seu livro “Confissões do Pastor” que você “sofria de uma fome insaciável e, enquanto não era atendido nos seus clamores por comida, não deixava ninguém em paz. E a gritaria começava muito cedo, as quatro da matina, quando desferia os primeiros berros, machucando os ouvidos de todos, até dos vizinhos... e você gritava: gagau, desesperado, até lhe trazerem a papa das quatro da manhã”.

Este é o meu Calebe, e espero que não só nisto ele venha a se parecer com você!

Mas o fato é que depois da mamada, não consegui mais dormir, porque há tempos queria ter-lhe escrito, mas o tempo nunca me sobra. Tive uma forte insônia e, então, vim para o computador.

Tenho 33 anos, 23 de convertida ao Senhor Jesus, há 21 lendo seus livros. Desde os meus doze anos já lia seus livros, embora nem sempre compreendendo a riqueza do vocabulário, muitas vezes distantes da minha pequena compreensão de mundo. Lembro-me de um irmão da igreja que um dia me chamou atenção, me reprovando, dizendo que não era pra eu ler Caio Fábio, mas a Bíblia, pois Deus não estava gostando nada disso. Fiquei com pena dele: ele com 35 e eu com os meus quase 14!

Mas o fato é que sempre me identifiquei com a veracidade das suas pregações, vividas com muito amor por você. Talvez porque eu também tenha sofrido alguns de seus dramas e enxergado bem cedo a hipocrisia do mundo evangélico e me enojado de muito do que vi.

Hoje faço parte de uma comunidade cristã que busca viver a autenticidade do evangelho de Jesus.

Sou supervisora pedagógica numa escola periférica de minha cidade, e tenho visto o sofrimento que a desigualdade social tem trazido aos empobrecidos, aos marginalizados, aos excluídos de nosso país. Convivo diariamente com crianças entre 6 e 13 anos: sujas, famintas, carentes de amor, e muitas filhas e filhos de presidiários ou ex-presidiários, traficantes, prostitutas. Deus tem me enchido de amor por esses pequeninos, e tem-me dado muita autoridade para estar ali, vivendo Cristo. Estar ali tem me despertado pra muitas coisas: para a necessidade do amor incondicional, para a importância de se repensar numa nova educação que derrube os muros que os separam e os excluem socialmente e adentre na vida de cada um.

Além disso, pretendo realizar uma pesquisa de doutorado sobre a educação penitenciária no Brasil. Seu livro “Confissões do Pastor” encheu-me de desejo para o tema, embora eu saiba que você não vivenciou Bangu I para nenhum fim científico. Quero estudar para compreender melhor o ambiente no qual Deus tem me usado profundamente e intensamente. Sei da presença cada vez mais forte do tráfico na periferia, e que a realidade atual do crime organizado que se instala em regiões carentes exige de nós uma reflexão para entendermos seu significado. Se tivermos como pressuposto filosófico que crime é o que vai contra a condição humana, a sociedade já comete crime contra uma parcela da população com a injustiça social, que impõe a pobreza à maioria das pessoas. E, talvez por isso, essas comunidades carentes, já cansadas de não receberem a proteção do Estado para as suas necessidades básicas de sobrevivência, tenham apelado para o poder do tráfico, que são organizações criminosas que funcionam como defesa social e fazem coisas que o Estado não faz.

Sei do poder da mídia conservadora e sensacionalista, que trata essas questões como uma simples explosão do Mal contra a sociedade do Bem. E você, em seu livro “Confissões do Pastor”, expõe claramente o poder midiático e os estragos que ele faz.

O Brasil está se organizando para implantar em todos os presídios e penitenciárias a escola prisional de ensino fundamental e médio. Aqui em minha cidade já são duas escolas prisionais, e tenho participado dos encontros entre agentes carcerários e profissionais da educação.

Sei que além de pastor, de um homem de Deus, você é um homem que vivenciou o poder político e o que existe por detrás dos gabinetes de nossos políticos. Gostaria que comentasse sobre a educação prisional em nosso país e que tipo de educação poderia alcançar esses presos, vivendo na corda bamba entre a punição (desejada pela sociedade) e a ressocialização (que nem ele às vezes acredita que possa vir a ter).

Sua opinião me trará sossego, pois o que você fez por esses empobrecidos e excluídos com a Fábrica da Esperança, sua ousadia pela amizade com presos de alta periculosidade, sua disposição em servir e enxergar o homem por detrás do crime cometido, faz de você a referência mais importante para qualquer estudo que eu venha a realizar.

Um grande beijo pra você, no amor Daquele que nos fez livres ao nos prendermos na Sua Infinita Graça,

Vanessa
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Resposta:


Querida Vanessa: Graça e Paz!


Também perdi o sono. Já são 5 da manhã aqui em Manaus, onde estou desde o dia 6 de agosto, quando vim para assistir a cirurgia de alto risco de meu pai, e para a qual ele foi como um cordeiro mudo e grato. Perguntado sobre qual era a vontade de Deus naquilo tudo, ele disse: “Não sei. Mas vou fazer a cirurgia para fazer a vontade de Deus; pois, esta é a vontade Dele para mim. Pode ser que seja para me levar. Seja como for eu irei”.

Não pude dormir hoje. A muleta e bengala dele são minhas heranças, as únicas que quero.

Olho para ambas, a muleta e a bengala, e choro de saudades. Elas eram tão parte dele que é como se um pedaço vivo dele estivesse aqui no quarto, comigo. Sinto o cheiro dele na muleta. E dói de saudade.

Quando eu era menino ela jogava a bengala para mim, que ficava deitado no chão esperando o arremesso, e, quando ele a jogava, eu a apanhava com os pés e ficava fazendo malabarismos. Fiquei bom naquilo. Chegávamos à casa dos parentes e amigos, e eu, ainda com seis anos, me deitava no chão como um cãozinho amestrado e esperava que ele me arremessasse a bengala.

Depois de manhã volto para casa, e faço isto com dores diversas, tanto pela saudade dele, como também em razão de minha mãezinha, que ficará aqui com minhas manas, bem assistida, embora eu saiba que minha presença como filho mais velho dê a ela seguranças que ela, agora, necessite muito.

Assim, sua carta é fruto de insônia, e a minha resposta também!

Minhas opiniões sobre o sistema prisional brasileiro não são nada ortodoxas. De fato, eu vi tudo durante anos; vendo de dentro; vendo a partir do Estado (Governo e sua máquina...) e da carceragem e da Policia; e, também, vendo de “fora”, a partir dos apenados e suas famílias; e, sobretudo, a partir do ambiente social do qual tais pessoas em geral são oriundas — e o que vi me desalentou.

Trata-se de uma luta inglória, definida por meu dileto amigo Nilo Batista (para mim a pessoa que mais estuda e entende do assunto no país) como um “trabalho de enxugar gelo”.

Na realidade o maior crime é o crime oficial e fardado!

O Estado não tem interesse em investir em nada que seja eficaz e ressocializante. Eu mesmo levei inúmeras propostas que foram tidas como “não agradáveis à mídia”. Sim! Porque de fato a mídia determina quem fica e quem sai da cadeia no caso de presos pobres e famosos. Eles fazem o sujeito ficar famoso, e, depois, pela própria fama, o mantém preso.

De fato, temos o Estado desinteressado, a Policia bandida atrás das fardas, o sistema penitenciário corrompido e perverso, e a mídia hipócrita e moralista, embora, muitos dos que cubram tais matérias jamais deixem de cheirar seu pó ou fumar seu baseado.

E mais: até alguns heróis da mídia mortos pelo tráfico o foram em razão de traições, pois, compravam drogas nas bocas que cobriam jornalisticamente de modo hipócrita.

Conheço governadores que não dormem sem um baseado e senadores e deputados que não passam sem cheirar uma carreira... A Policia então nem se fala: não só muitos deles usam o que apreendem, mas, não poucos, dirigem o tráfico de modo indireto.

Assim, toda essa guerra Americana contra o tráfico [é um guerra americana mesmo...] é burra, perversa e maligna; pois, de fato, cria um esquema de corrupção infinitamente maior do que o mal que o trafico em si mesmo causa.

É como matar barata com arma química. Mata a barata e tudo mais à volta. Assim é a guerra contra o tráfico.

Portanto, sou a favor, não por escolha, mas por não conseguir aceitar tamanha burrice como inteligência, que haja políticas diferentes em relação ao tema.

Aqui no site você encontrará muitas opiniões minhas sobre o tema [veja em Busca, e escreva as palavras relacionadas e você encontrará alguns textos meus sobre o assunto].

Em minha opinião dos males sempre se deve escolher o menor, quando não se pode escolher entre o que é bom e melhor. Infelizmente lamento informar que no Brasil nossas escolhas são todas entre o inferno e o purgatório.

Para mim se o Brasil desejasse fazer algo eficaz sobre a questão, deveria de vez romper com o modelo Americano, burro e inócuo, e adotar políticas do tipo europeu.

Veja se na Europa se tem o tipo de perfil de desgraça relacionada às drogas que se vê nos Estados Unidos e de lá sendo expandido para a desgraçada América Latina?

O fato é que essa repressão aramada e de guerra está transformando nossa terra num Iraque de política americana.

Pergunte aos governadores de eles crêem de fato que a repressão dará jeito nas coisas. Pergunte ao Lula. Sim! A qualquer deles. Mas faça-o em particular. Ora, o que você verá é que eles não crêem nos resultados. Sei por que me disseram, muitos deles, e mais de uma vez. Dói, todavia, ver que se uma câmera for ligada diante deles, todos mudam de idéia na hora [isto é: para consumo político e de imagem].

Mas, se é assim, então por que implementam a política do Enxuga Gelo? Ora, é que eles governam para a mídia e para a classe média desejosa e necessitada de gadarenizar o tráfico a fim de excluir-se das causas do problema.

Isto sem falar que os pobres não têm recursos para manter o tráfico, razão pela qual a classe média é a grande consumidora, ao mesmo tempo em hipocritamente quer cheirar sem que feda.

Eles são como aqueles que comem o veneno e depois culpam aqueles que conseguiram para eles.

Minha sugestão, portanto, é que você estude as políticas européias de combate às drogas, pois, é o modelo menos danoso que se tem acerca de tal enfretamento no planeta.

Quanto ao Brasil, sinceramente, como posso ter esperança para a guerra das ruas se não se consegue nem mesmo tirar do Senado um senador corrupto?

Num país que rouba e rouba como este; e que rouba nos mais altos escalões — que pobre coitado terá motivação para evitar o ganho “fácil” [ironia] das drogas se a droga da maldade dilapida os recursos que seriam investidos nas populações marginalizadas?

Até mesmo na Fábrica de Esperança nós tínhamos que abrigar filhos de traficantes ou aprisionados, integrando-os com nomes outros, pois, se a mídia soubesse que os filhos do Escadinha estudavam conosco, logo fariam um estardalhaço...

A coisa toda é mentirosa e hipócrita!

Creio, todavia, que em casos menores e em instituições de cidades menores, ainda é possível melhorar topicamente algumas coisas. Porém, no que tange às políticas de repressão, saiba: elas são feitas sem que se acredite na eficácia delas; nem pelos que as implementam como conceitos, e, menos ainda, pelos que as praticam como ações policiais.

E a coisa vai longe...

É tanta coisa que nem dá pra contar aqui e agora, mas basta dizer que não é de hoje que há juízes e desembargadores envolvidos no esquema. Eu mesmo, na década de 90, vi como isto acontecia. E vi que os próprios políticos contratam tiroteios em época de eleição, gastando milhões, a fim de que bandidos contratados façam um estardalhaço na cidade a fim de prejudicar seja qual for o governo em exercício.

Bangu I nasceu assim...

Pagaram o Gordo, o Escadinha e o Japonês para fugirem da Ilha Grande a fim de aterrorizar a população da Zona Sul com o famoso duelo de São Pedro, que é basicamente o seguinte: paga-se para que os bandidos passem o dia e a noite atirando para o alto a fim de incomodar e apavorar aqueles que ditam as opiniões; e, assim, a mídia barbariza o governo em exercício, fazendo com que um outro tenha assim a chance de praticar seu banditismo oficial.

O Escadinha não foi resgatado pelo Gordo num helicóptero que entrou no pátio do antigo presídio da Ilha Grande levando o “bandido”. Não! O Gordo me contou que o Escadinha já estava fora, na praia; e que ambos ainda tomaram um banho de mar antes do helicóptero partir... E o valor? Seis milhões de dólares pagos por um oficial da Policia, negro e conhecido, e que foi morto como queima de arquivo logo depois. Os envolvidos? Ah! Deus sabe! E eu gostaria de não ter sabido...

Então, numa traição, os mesmos que os contrataram construíram Bangu I e os puseram lá depois de ganha a batalha política.

É um nojo só!

Bem, amanhece e tenho que parar...

Mas saiba: foi um prazer receber a sua carta!

Em nome de Jesus desejo sobre você, seu esposo e seu Calebe todas as bênçãos da Graça!

Um carinhoso abraço!


Nele, que morreu entre os bandidos menos ofensivos, pois, os piores davam as ordens oficiais, e, entre tais..., ninguém se arrependeu, mas, ao lado Dele, como outro condenado, um enxergou,


Caio

24/09/07
Manaus
AM




domingo, 19 de outubro de 2008

O eu-profundo que em mim habita


O que, de fato, nos torna seres humanos?

Tal pergunta parece, a priori, fácil de ser respondida... todavia, a dimensão do “eu” carrega alguns elementos decisivos que nos constituem como um ser que se diferencia de todos os demais...

Somos seres que choram, que se alegram, que projetam, que pensam, que escravizam, que libertam, que buscam, que se perdem, que amam, que sonham... enfim... seres que produzem os mais diferentes tipos de sentimentos e afetividades...

Somos seres constituídos por uma hereditariedade orgânica (genética), impressa em nossa existência no momento da concepção...

Somos também produto do meio, seja familiar ou social, que também “deixa marcas” em nossa existência por meio do “caldo residual” familiar de todos os que nos precederam ou através das relações entre sujeitos com os quais negociamos nossas ações...

Seres que sofrem influência do poder econômico, o qual determina o modo como encaramos o significado do ser ou não ser... que quase sempre nos inclina pela troca do ser pelo ter...

Somos seres políticos, que vivem num espaço-tempo que nos influencia na construção de uma cosmo-visão, a qual determinará nossas ações frente às questões de governamentabilidade...

Seres com uma arquitetura psicológica e condicionamentos cerebrais complexos, além de possuirmos um conjunto de acidentes afetivos que nos “esbarrarão” durante todo o curso de nossa existência com marcas de amor, de ódio, de fidelidade, de perdão...

Seres que sofrem de uma influência espiritual, que agem no campo da invisibilidade, sempre usando a produção dos humanos...

O conjunto de todas essas dimensões nos constitui como seres humanos... mas o que nos torna diferentes é a eternidade "plantada" no âmago do nosso coração e que nos faz dependentes e necessitados de um relacionamento com Alguém que seja maior do que nós mesmos...
Assim... que ao lançarmos nossos olhares para o eu-profundo que habita em nós, possamos nos entender à luz de cada uma dessas dimensões: todas elas presentes do Altíssimo para vermos e avaliarmos conscientemente o que desejamos abraçar como nosso e o que sabemos que, embora sendo nosso, não faz bem à vida!

“Sonda-me ó Deus, e conhece o meu coração, vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno”. Sl 139

Que Deus perscrute os porões do nosso ser, no ambiente do mistério absoluto de quem, de fato, somos... e altere, desde as raízes , tudo aquilo que não procede Dele, que nos deixa perplexos, assustados e abatidos e nos distancia da Sua intimidade.
Vanessa